Drones ucranianos x iranianos: entenda a lógica da “guerra custo-benefício”

O piloto de guerra mais temido em 2026 não comanda um avançado caça americano, mas sim um enxame de drones iranianos. Ele usa óculos de realidade virtual e segura um controle parecido com o de videogame em vez de um manche.

Na tela, o piloto consegue controlar não apenas uma aeronave, mas centenas ao mesmo tempo, com ajuda de inteligência artificial capaz de reconhecer alvos de forma autônoma e realizar manobras para confundir baterias antiaéreas.

Para serem efetivos, os drones iranianos Shahed não precisam destruir salas cheias de líderes adversários, como fazem os mísseis de alta precisão de Israel. Essas aeronaves são produzidas em grande escala, com custo estimado na faixa de R$ 100 mil por unidade, mas obrigam o inimigo a usar sistemas interceptadores que custam milhões de dólares por disparo.


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A lógica é a da chamada “guerra do custo-benefício”. É como se o Irã estivesse correndo com um BYD Dolphin Mini enquanto seus adversários usam um Porsche Taycan — e, ainda assim, ambos cruzassem a linha de chegada ao mesmo tempo.

Drones iranianos em transporte (Imagem: Reprodução/EurasianTimes)

O analista de segurança e defesa Alessandro Visacro resume a mudança estratégica:

“Essa relação entre custo e efeito passou a favorecer fortemente o emprego de drones. O objetivo não é apenas atingir um alvo específico, mas saturar os sistemas de defesa do adversário.”

Nesse tipo de estratégia, explica ele, o volume de aeronaves se torna tão importante quanto sua precisão.

“O que se busca é lançar uma grande quantidade de drones para sobrecarregar o sistema de defesa inimigo.”

O ataque que mudou a guerra

Mas não foram os iranianos os primeiros a explorar essa lógica. Em 1º de junho de 2025, a Ucrânia realizou um dos ataques mais simbólicos da nova guerra de drones. Na operação, 117 drones improvisados foram lançados contra aviões militares russos estacionados em hangares.

Essas aeronaves não eram equipamentos militares sofisticados. Muitas haviam sido montadas com peças de drones comerciais, incluindo componentes da fabricante chinesa DJI e de outros modelos disponíveis no mercado civil.

Cada drone custava cerca de R$ 3 mil. Mesmo assim, a operação provocou um prejuízo estimado em R$ 37 bilhões à Rússia, ao atingir ou danificar aeronaves de combate.

O episódio demonstrou que sistemas baratos poderiam gerar impactos estratégicos enormes.

Desde então, drones passaram a ser usados não apenas para vigilância ou reconhecimento, mas também como armas “kamikaze”, projetadas para explodir junto com o alvo ou obrigar a ativação de sistemas de defesa caros.

A barreira invisível da guerra eletrônica

Apesar do sucesso inicial da Ucrânia, o uso de drones comerciais adaptados encontrou um obstáculo difícil de superar: a guerra eletrônica.

O pesquisador Carlos Wrobleski usa drones como ferramenta de trabalho no Laboratório de Geotecnologias Aplicadas à Agricultura e ao Meio Ambiente Digital (LAGEAMD) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Ele explica que drones civis são extremamente vulneráveis.

“É relativamente simples neutralizar drones comerciais porque seus sinais de rádio são abertos e não possuem sistemas avançados de criptografia.”

Nos campos de batalha modernos, explica ele, não se utilizam apenas mísseis para derrubar aeronaves. Sistemas de interferência eletrônica (jamming) também são empregados para embaralhar sinais e derrubar drones.

“Um pulso eletromagnético suficientemente forte pode inutilizar grande parte dessas aeronaves.” Segundo o pesquisador, até interferências naturais podem afetar drones civis. “Mesmo em ambientes civis, um drone comercial pode sofrer interferência ao se aproximar de linhas de transmissão ou de formações rochosas ricas em ferro.”

É justamente nesse ponto que entram os drones militares desenvolvidos pelo Irã.

Essas aeronaves possuem sistemas mais robustos de comunicação e navegação, projetados para resistir a interferências eletrônicas. “Esses drones utilizam mecanismos de proteção e estratégias para evitar frequências conhecidas de interferência”, explica Wrobleski.

Drone com motor de ultraleve

Para atravessar até 1.000 km até seus alvos, os drones militares não podem depender apenas de baterias. Segundo Wrobleski, os modelos iranianos utilizam motores a combustão semelhantes aos usados em aeronaves leves.

“Esses drones utilizam motores Rotax, que são amplamente empregados em aeronaves ultraleves.”

Esse tipo de propulsão permite voos mais longos e maior capacidade de carga.

Além disso, o design das aeronaves também contribui para a autonomia. O formato triangular, conhecido como asa delta, funciona como uma grande asa-voadora.

“A estrutura da aeronave é utilizada para armazenar combustível. É praticamente uma asa embebida em combustível”, explica o pesquisador. Na fase final do ataque, a estratégia é maximizar a velocidade. “Esses drones buscam ganhar muita energia cinética na aproximação final, transformando o impacto em um fator destrutivo adicional.”

Drones iranianos usam motores de aviação civil para alcançar longas distâncias (Imagem: gerada por IA/Gemini)

Quando os EUA copiaram a estratégia do Irã

A eficiência desse modelo de guerra chamou a atenção até mesmo dos adversários do Irã.

Os Estados Unidos passaram a desenvolver drones de baixo custo inspirados diretamente nos modelos iranianos. Um exemplo é o LUCAS (Low-Cost Unmanned Combat Attack System).

Segundo Wrobleski, parte do projeto foi baseada em engenharia reversa de drones como o Shahed. Esses equipamentos foram desenvolvidos a partir da análise de drones iranianos, reproduzindo parte da lógica de baixo custo e produção em escala.

Nos testes operacionais, os EUA chegaram a usar esses drones de forma diferente da estratégia iraniana.

“Em alguns casos, os drones foram empregados como iscas para forçar os sistemas de defesa a se revelar.” A ideia era saturar o espaço aéreo com aeronaves baratas para identificar posições de baterias antiaéreas. “Ao reagirem ao ataque, os sistemas de defesa expõem sua posição e podem ser neutralizados por outros meios.”

 LUCAS, Low-Cost Unmanned Combat Attack System (Divulgação/US DOD)

O avanço silencioso da China

Enquanto as atenções globais se concentram no Oriente Médio e na guerra na Ucrânia, outro país acompanha de perto essa transformação militar: a China.

Os chineses já dominam o mercado global de drones comerciais e possuem um programa militar avançado nessa área.

Wrobleski afirma que o país pode estar à frente em alguns aspectos dessa corrida tecnológica. O pesquisador destaca que os chineses também investem em drones militares com características de aeronaves furtivas.

“Existem projetos de aeronaves não tripuladas com características semelhantes às de caças de quinta geração, incluindo capacidade furtiva e alto grau de autonomia.”

A combinação de inteligência artificial, produção em massa e custos relativamente baixos indica que a guerra aérea pode estar entrando em uma nova era.

Aqui estão os três parágrafos adicionais sobre o estado da indústria de drones militares no Brasil, incorporando as informações da entrevista e dos documentos recentes:

O Brasil na corrida tecnológica dos drones militares

Apesar de a guerra dos drones parecer distante, o Brasil já possui uma forte capacidade produtiva e não está ficando para trás nessa nova corrida militar.

O pesquisador Carlos Wrobleski destaca o polo de São José dos Campos (SP), que abriga empresas de ponta como a XMobots e a Stella Tecnologia.

A Stella Tecnologia, por exemplo, testou o Albatroz Vortex, uma aeronave tática remotamente pilotada que realizou seu primeiro voo em 17 de dezembro de 2025, na Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro. 

Para impulsionar a capacidade bélica do país, a Força Aérea Brasileira (FAB) assinou um protocolo de intenções com a Stella Tecnologia visando o desenvolvimento de Sistemas Aéreos Remotamente Pilotados (SARP) e drones multipropósitos.

O acordo tem como foco criar equipamentos não apenas para missões de inteligência e vigilância, mas também drones “kamikazes” para ataques suicidas e lançamento de cargas explosivas.

Fora isso, a Embraer encontrou uma nova vocação para o Super Tucano, seu tradicional caça turboélice. Wrobleski explica que a fabricante, notando “que o campo de batalha tá mudando”, adaptou a aeronave, que “voa numa velocidade menor e que tá se destacando justamente por isso”.

Devido a essa característica de voo, que facilita o emparelhamento com veículos não tripulados mais lentos, a Embraer “agora instala um kit dentro dela voltado para a missão exclusivade caça a drones”. O potencial dessa adaptação já repercute internacionalmente

“A Embraer tem negociações com a Ucrânia para vender uma parte desse tipo de aeronave via OTAN”, relata o pesquisador, com o objetivo de ajudar o país europeu a “conseguir abater drone inimigo em seu território”.

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